GAZETA DIGITAL

14.5.07

Os suplementos publicitários do Expresso: Um "olhar credenciado [e bem pago…] sobre Macau"

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Os fascículos publicitários que “ninguém” encomendou


Em 11 de Novembro de 1995, o Expresso anunciou a publicação de um suplemento especial sobre Macau, em cinco fascículos, classificando-os como "O último e mais credenciado olhar português sobre o Oriente". Este anúncio, então publicado nas páginas da Revista é esclarecedor. Mas aquilo que era publicitado como um trabalho jornalístico acabou por se revelar um suplemento comercial, pago e totalmente feito pelo Governo de Rocha Vieira, através de uma empresa privada – a Livros do Oriente, de Beltrão Coelho. Durante quase um ano, o Governo de Rocha Vieira negou ter algo a ver com os referidos fascículos e desmentiu formalmente que tivessem sido pagos pela Administração. Afonso Camões, director do Gabinete de Comunicação Social (GCS), afirmou, ao ser interrogado por deputados, durante uma sessão da Assembleia Legislativa, que a publicação dos fascículos "não envolveu qualquer outro encargo ou participação financeira do Orçamento do GCS", para além da cedência de fotografias.
"É uma iniciativa do Expresso, com a colaboração do GCS e subcontratada a uma empresa privada do Território", acrescentou. O mesmo disse João Diniz, chefe de Gabinete do secretário-adjunto para a Comunicação, Turismo e Cultura, Salavessa da Costa, garantindo que os serviços daquela tutela não suportaram nem vão suportar despesas nenhumas relativas aos cadernos do Expresso.
O Governo de Rocha Vieira nunca admitiu oficialmente ter pago quase oito milhões de patacas – mais de 160 mil contos – pelos referidos suplementos. Mas o Expresso emendou a mão e admitiu, mais tarde, que o tal "olhar credenciado" sobre Macau não era mais do que um conjunto de "suplementos comerciais cujo conteúdo está fora do nosso controlo redactorial e editorial", como afirmou, em Março de 1996, Henrique Monteiro, director-adjunto daquele semanário.
Os textos inseridos no suplemento foram escritos, na quase totalidade por funcionários do Governo e jornalistas ao serviço da Rádio e Televisão locais, controladas pelo Governo.

Tribuna de Macau

5 de Junho de 1996

Fascículos do "Expresso" custaram cerca de 6,5 milhões

Gilberto Lopes

Os fascículos do "Expresso" sobre Macau custaram à Administração do Território cerca de 6,5 milhões de patacas, revelaram ao nosso jornal fontes da Administração do Território. A Administração do Território "patrocinou com um montante global próximo dos 6,5 miIhões de patacas" os cinco fascículos do "Expresso" publicados entre 25 de Novembro e 23 de Dezembro, revelaram ao nosso jornal fontes da Administração do Território.
As nossas fontes garantem que a iniciativa foi do 'Expresso". Recorde-se, a propósito, que o próprio jornal, ao anunciar a iniciativa na primeira página, escreveu que os fascículos da série Macau são uma publicação da responsabilidade do Governo do Território que coincidiu com a inauguração do Aeroporto Internacional.
"Em finais de Abril de 95, o "Expresso" propôs à Administração do Território a realização de uma iniciativa editorial de divulgação e promoção de Macau, a levar a efeito em meados do ano. A iniciativa foi acolhida com agrado, como acontece, aliás, com dezenas de outras iniciativas do género conduzidas por publicações de prestígio, como é o caso", começaram por explicar as nossas fontes.
"Da parte da Administração acrescentaram - "sugeriu-se apenas que tal iniciativa fosse um pouco diferida no tempo, fazendo-a aproximar do Outono, período tradicionalmente de maior concentração de iniciativas as promocionais em Macau (HMM, Grande Prémio, etc) e em especial em vésperas de inauguração do Aeroporto Internacional de Macau".

Ainda segundo as mesmas fontes, para a realização daquela iniciativa de promoção de Macau, o Expresso recorreu aos serviços de produção de uma editora privada, a Livros do Oriente, Lda, que por sua vez recorreu aos serviços de mais de três dezenas de colaboradores (jornalistas e fotógrafos profissionais, portugueses e chineses, e também do próprio Expresso.)

"O 'Expresso' adoptou a fórmula de edição de cinco revistas temáticas de 68 páginas cada (340 págs. no total) com mais de um milhão de exemplares publicados em semanas consecutivas, entre 25 de Novembro e 23 de Dezembro", adiantaram ainda as citadas fontes.

"As edições dos cadernos de Macau encontram-se", de acordo com informações de responsáveis daquele semanário, "completamente esgotadas na origem, apesar dos múltiplos pedidos que lhes têm chegado".

As nossas fontes notaram por outro lado que para além da tiragem normal do Expresso (190 mil exemplares vezes cinco semanas) aquele semanário "assegurou uma tiragem suplementar de revistas sobre Macau que estão a ser destinadas à divulgação das realidades do Território junto das Casas de Macau, leitorados de português e à totalidade das representações culturais e diplomáticas de Portugal no Mundo, de acordo com um mailing especial facultado pelo Gabinete de Comunicação Social".

Ponto Final

Março de 1996

Camões nega, Noronha espera

António Ramos André

O director do GCS negou ao PONTO FINAL ter mentido à Assembleia Legislativa acerca dos custos para o Território com a publicação de cinco separatas sobre Macau distribuídas pelo Expresso, enquanto Alberto Noronha reafirmou continuar à espera de saber quem e como se pagou aquela iniciativa «de luxo».Afonso Camões disse ao PONTO FINAL que a sua resposta à assembleia, durante o debate das Linhas de Acção Governativa, se referiu «exclusivamente» ao conteúdo das cinco separatas. «Respondi exclusivamente à pergunta que me foi feita, a mim, e que se referia às temáticas dos encartes, nunca me referi a custos. O deputado Noronha não pode dizer que menti», declarou o director do GCS.

Este responsável recusou avançar pormenores sobre o financiamento da publicação de 300 páginas totalmente a cores, dividida em cinco fascículos. «É uma iniciativa do Expresso, com a colaboração do GCS e subcontratada a uma empresa privada do território. A colaboração envolveu sobretudo as fotografias, como o GCS tem feito para muitas outras publicações que nos solicitam», declarou.
«Aquela publicação não envolveu qualquer outro encargo ou participação financeira do Orçamento do GCS», acrescentou.

Uma fonte autorizada do gabinete do secretário-adjunto para o Turismo e a Comunicação negou igualmente participação financeira na iniciativa. «Se encargos houver, e repare que não estou sequer admitir que seja o caso, nós, no gabinete, nem qualquer dos serviços desta tutela não suportámos nem vamos suportar despesas nenhumas relativas aos cadernos do Expresso», declarou ao PONTO FINAL, João Diniz chefe de gabinete de Salavessa da Costa.

Contactado pelo PONTO FINAL, Alberto Noronha declarou que, independentemente da via de financiamento, o problema continua a requerer esclarecimento. «Não vi nenhuma fonte oficial desmentir estimativas de custos que rondam as muitas dezenas de milhar de contos avançadas pela Imprensa», comentou Alberto Noronha.
«Se não foi o GCS que pagou, e eu nunca afirmei que fosse, então quem é que na administração de Macau pagou quanto pagou. É só o que desejo que seja esclarecido », declarou. O Expresso anunciou na primeirs página que a publicação é da responsabilidade do Governo de Macau. Nem outra explicação seria crivel, dado o carácter promocional da iniciativa que o dr. Salavessa da Costa defendeu na Assembleia», acrescentou o deputado.

Afonso Camões não comentou as estimativas de entre 20 a 25 mil contos avançadas pelo PONTO FINAL, para o custo unitário dos fascículos. Porém, o director do GCS contrapôs a sua estimativa de que o custo de cada fascículo «deve ser inferior ao da revista Macau». A Macau custa ao território m média meio milhão de patacas por edição, com uma tiragem de 15 mil exemplars. As separatas do Expresso, distribuídas com as edições daquele semanário lisboeta nas duas últimas semanas de Novembro e primeiras três semanas do corrente mês, tiveram uma tiragem 40 vezes superior, acompanhando cada um dos cerca de 200 mil exemplares que aquele jornal vende semanalmente.

Ponto Final

9 de Março de 1996

EDITORIAL

Esta semana a «novela» dos custos dos fascículos do Expresso sobre Macau atingiu um ponto previsível... e risível. Provavelmente por ter lido a notícia que publicámos na última edição, em que manifestávamos estranheza por o chefe de gabinete de Salavessa da Costa se encontrar em reunião contínua com o seu superior durante duas semanas (não podendo por isso atender-nos) João Diniz mostrou-se finalmente disponível esta semana. Para devolver a bola ao Gabinete do Governador, que nos tinha comunicado que não foi de lá que saiu o dinheiro para pagar os cadernos publicitários, remetendo-nos para o gabinete do secretário-adjunto para a Comunicação, Turismo e Cultura.

Diga-se de passagem que o pinguepongue não é de agora pois tudo começou exactamente com João Dinis (e também Afonso Camões, director do GCS) a dizer, na nossa edição de 21 de Dezembro, que não tinha havido qualquer envolvimento financeiro do gabinete do secretário-adjunto nem de qualquer dos serviços por ele tutelados. Razão por que nos dirigimos, em seguida, ao Gabinete do Governador. Que também nega qualquer envolvimento. Seguindo esta lógica restar-nos-ia um único caminho. Telefonar para os gabinetes dos secretários-adjuntos Jorge Rangel, José Manuel Machado, Vítor Pessoa, Ana Perez, Lages Ribeiro e Macedo de Almeida a perguntar se foram eles (ou algum dos serviços por ele tutelados) a pagar ao Expresso.
Mas provavelmente não seguiremos esse caminho. O que está em causa é suficientemente sério para que se evitem brincadeiras. Trata-se afinal de uma Administração que parece ter vergonha dos seus actos, a ponto de os querer esconder e trata-se de um comportamento de fuga às responsabilidades e falta de transparência que Rocha Vieira deveria não permitir que acontecesse. É de facto muito mau sinal - sobretudo para quem passa a vida a exaltar o «sentido de Estado» que um Governo chegue a um ponto em que ninguém é responsabilizável por nada, denunciando desleixo e falta de respeito pela coisa pública.



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